LUAR DO SERTÃO. O Hino Nacional Sertanejo.

Catulo da Paixão Cearense
João Pernambuco

Luar do Sertão é uma toada brasileira de grande popularidade, considerada o
“Hino Nacional Sertanejo”.

É uma das músicas brasileiras mais gravadas de todos os tempos, e conta atualmente com mais de 150 interpretações diferentes.

Melodia emotiva, com versos simples e ingênuos de Catulo da Paixão Cearense, gravada pela primeira vez em 1914, exalta a vida no  sertão e o luar.

Esta é gravação original, na voz do lendário Eduardo das Neves, cantor, compositor e palhaço de circo:

https://www.youtube.com/watch?v=pJpzOoab9vI

Luar do Sertão” na Enciclopédia Itaú Cultural: http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra6120/luar-do-sertao

POLÊMICA : Quem compôs a melodia de “Luar do Sertão”?

Catulo da Paixão Cearense jurava, de pés juntos, que, música e letra eram de sua autoria.
O violonista João Pernambuco reclamava a autoria da melodia.

Historiadores e personalidades ligadas à música afirmavam que o tema tinha origem no coco ritmo e dança da região Nordeste do Brasil, com influências dos batuques africanos e dos bailados indígenas – É do Maitá, ou Meu Engenho é do Humaitá, de autor anônimo.
Catulo, que se autodenominava “um sertanejo sem sertão”, pois sabia descreve-lo muito bem, apesar de não conhecê-lo, declarava que o Luar do Sertão era uma melodia nortista, “pertencente ao domínio folclórico”.

 A polêmica deu muito pano pra manga; foi parar na justiça, e até Villa-Lobos meteu a batuta no assunto.

Leandro Carvalho, estudioso da obra de João Pernambuco e organizador do CDs

Leandro Carvalho “Descobrindo João Pernambuco” (Eldorado, 1999)
Álbum completo: https://www.youtube.com/watch?v=TK9X-fXgRgk

Leandro Carvalho “João Pernambuco: O poeta do violão” (Eldorado, 1997)
Álbum completo: https://www.youtube.com/watch?v=vzw5dGuHUQc

declarou: “Por onde João andava, Catulo estava atrás, anotando tudo; foi o que aconteceu com Luar do Sertão: Catulo ouviu, mudou a letra e disse que era sua”.

Aqui está o tal do coco É do Maitá, ou Meu Engenho é do Humaitá:
https://www.youtube.com/watch?v=ygUl-oSn_as

Acho que a única coisa semelhante entre melodia deLuar do Sertão e a melodia desse coco é o ritmo da segunda parte, composto de quatro semínimas a cada tempo, mas, isso é próprio de qualquer coqueiro que dá coco.
A melodia do refrão (não há, ó gente, ó não…) não tem nada parecido com nenhuma parte de É do Maitá.
Pra mim a melodia é de João de Pernambuco.
Catulo não fazia muita questão de revelar o nome de seus parceiros.

  • Artigo primoroso, sobre Luar do Sertão por Leonardo Davino, ensaísta, mestre em Literatura Brasileira e pesquisador de canção popular:

O sujeito de “Luar do sertão”, de Catulo da Paixão Cearense e João Pernambuco, desenha a beleza da paisagem de seu lugar, de sua gente e de sua origem. Sujeito simples, sem grandes ambições materiais, ele canta as coisas mais simples da vida e, por isso, detentoras da felicidade.
Canção do exílio, “Luar do sertão” é o lamento (“Oh que saudade”) da distância: do sujeito separado de seu recanto rural, provavelmente por ter sido preciso ir buscar melhores condições financeiras, para o sustento da vida, nos centros econômicos: na cidade.
Fácil de cantar, com versos que contam a trajetória de muitos brasileiros, a canção virou hino deste tipo de migrante. Há uma melancolia, toda humana e sentidamente singela, no canto do sujeito que, em algum lugar da “cidade grande”, perdido na noite fria, evoca o deslumbre da lua do sertão, para figurativizar a gênese de sua existência: a lua é canção – canta o sujeito, que retribui com outra canção.
Aqui, vale trazer um pouco da biografia dos dois para compor a imagem que a canção pede: irmãos, começaram a cantar juntos ainda na infância, na zona rural de Uberlândia (MG), onde trabalhavam na lavoura. A ida para São Paulo, tentar a sorte, foi em 1968, quando conhecem outras duplas caipiras, como Tonico e Tinoco e Milionário e José Rico. O mais é trabalho e história.
“Luar do sertão”, que está no disco ‘Ribeirão encheu’(1995) é uma toada feita para acalentar a saudade: saudade que significa a sensação de estar envelhecendo longe de “seu lugar”. A dicção vocal da dupla tenciona a agonia do sujeito da canção, ainda mais quando lembramos e ligamos a isso a imagem de Pena Branca e Xavantinho, com o sertão na aparência física, cantando na TV, acompanhados da imprescindível viola caipira.
O sujeito, que não se acomoda na cidade, também não define o lugar de onde canta: supomos que seja, exatamente, no entrelugar, no desconforto: é deste lugar que sai o canto: do coração que não encontra pouso fora da terra natal, do sertão, que “está em toda parte”, como Riobaldo, personagem de ‘Grande sertão: veredas’, aponta.
Por outro lado, é na realidade sertaneja que encontramos a grande síntese da épica-dramática brasileira. Como a professora Walnice Nogueira Galvão escreve, no livro ‘As formas do falso’, “o sertão é o núcleo central do país”.
A personagem de Guimarães Rosa ainda aponta: “sertão é onde manda quem é forte, com as astúcias. Deus mesmo, quando vier, que venha armado!”.
O sertão é um estado-de-coisas e é consciência-de-si para o sujeito de “Luar do sertão”: é a solidão; é a saudade, mas é muito mais que isso. O sertão está incorporado ao ser. O sertão guarda uma mística, nada metafísica, que aniquila todos os dispositivos de interpretação dados pelos centros acadêmicos e econômicos “da cidade”. Estar no sertão é estar “no nada que é tudo”.
Com sua paisagem movediça, o sertão ilude: chama e espanta. O indivíduo cai no mar da abstração: caminha rumo ao infinito, sempre apartado de si, mas, por isso, com um único desejo: morrer abraçado à sua terra – gênese e identificação perdida.

Extraído do blog 365 Canções , que sem revelar o que o que o artista “quer dizer”, buscando possibilidades de leituras e de diálogos entre canções: http://365cancoes.blogspot.com/search?q=luar+do+sertão

Eis algumas gravações de “Luar do Sertão”:

Leonardo; Zezé Di Camargo & Luciano; Bruno E Marrone; Ivete Sangalo;Alexandre Pires; Gian & Giovani; Chitãozinho & Xororó;Pedro & Thiago : https://www.youtube.com/watch?v=f7GVA5MwdCM

Luiz Gonzaga e Milton Nascimento: https://www.youtube.com/watch?v=KhfZnZwBFHM

Tonico & Tinoco: https://www.youtube.com/watch?v=QPgAg-gUZAg

Chitãozinho & Xororó 40 Anos Sinfônico : https://www.youtube.com/watch?v=Sgu6dlevFHo

Maria Bethania – vídeo de Moacir Silveira https://www.youtube.com/watch?v=vsATs32Z0o0

Milton Nascimento: https://www.youtube.com/watch?v=1yjXhnM-JSg

Inezita Barroso e muitos convidados: https://www.youtube.com/watch?v=cFHlrnP2zcQ

Fafá de Belém e Fagner https://www.youtube.com/watch?v=D2Ee9X-hHBg

Marlene Dietrichhttps://www.youtube.com/watch?v=rArD8SoSd8k

Simone: https://www.youtube.com/watch?v=KDbfz6w-njc

Ceumar, Lui Coimbra & Paulo Freire :https://www.youtube.com/watch?v=v8-URZ8DmZc

Roberta Miranda: https://www.youtube.com/watch?v=U78fDRdcuzs

Jair Rodrigues: https://www.youtube.com/watch?v=J_KykDaMI-Q

Stelinha Egg: https://www.youtube.com/watch?v=xI1Grq_Q7r0

Elba Ramalho: https://www.youtube.com/watch?v=GCcHLR6DIXQ

Daniel, Yassir Chediak e Rodrigo Sater: https://www.youtube.com/watch?v=ACFmq5hNr-s

Padre Fábio de Melo: https://www.youtube.com/watch?v=idj4-jmlKvw

Vicente Celestino: https://www.youtube.com/watch?v=Xqg9F1qCHUk

Tuta Guedes e Sergio Reis: https://www.youtube.com/watch?v=dGYWQXV7aQs

Baden Powell : https://www.youtube.com/watch?v=dKFXSDUVwnM

Ray Connif (arranjo) : https://www.youtube.com/watch?v=pMOobiM3j_k

Renato Andrade: https://www.youtube.com/watch?v=ZrGqewMjKsc

John Dalgas Frisch : https://www.youtube.com/watch?v=TLVJ_JfqRbA

Chico Alves: https://www.youtube.com/watch?v=d_lOjPQ46u0
com suporte orquestral de Lírio Panicalli, em gravação Odeon de 5 de outubro de 1943.

Rosina da Rimini (gravação 1941): https://www.youtube.com/watch?v=BdtzCAXm45k

Los Pueblos: https://www.youtube.com/watch?v=1FCKubldHpg

Paraguassu (1936): https://www.youtube.com/watch?v=l1BMhCmm20Y

Singing Babies (gravado em 1935) : https://www.youtube.com/watch?v=AwQHybt2Ta8

LUAR DO SERTÃO

João Pernambuco e Catulo da Paixão Cearense

Não há, oh! gente, oh! não  
luar como esse do sertão
não há, oh! gente, oh! não
luar como esse do sertão! 

Oh! que saudades
do luar da minha terra 
lá na serra branquejando 
folhas secas pelo chão! 

(Refrão) 

Este luar 
cá da cidade tão escuro 
não tem aquela saudade 
do luar lá do sertão! 

Se a lua nasce
Por detrás da verde mata 
Mais parece um sol de prata 
Prateando a solidão! 

E a gente pega 
na viola que ponteia 
e a canção é a lua cheia, 
a nos nascer no coração! 

(Refrão) 

Quando vermelha,
no sertão, desponta a lua, 
dentro d’alma, onde flutua, 
também rubra nasce a dor! 

E a lua sobe 
e o sangue muda em claridade 
e a nossa dor muda em saudade 
branca, assim, da mesma cor! 

(Refrão) 

Ai, que me dera 
que eu morresse lá na serra, 
abraçado a minha terra 
e dormindo de uma vez! 

Ser enterrado 
numa grota pequenina 
onde, à tarde, a Sururina 
chora a sua viuvez! 

(Refrão) 

Diz uma trova, 
que o sertão todo conhece, 
que se à noite o céu floresce 
nos encanta e nos seduz! 

É porque rouba 
dos sertões as flores belas 
com que faz essas estrelas 
lá no seu jardim de luz! 

(Refrão) 

Mas como é lindo 
ver, depois, por entre o mato, 
deslizar, calmo, o regato, 
transparente como um véu! 

No leito azul 
das suas águas murmurando, 
ir, por sua vez, roubando 
as estrelas lá do céu! 

(Refrão) 

A gente fria 
desta terra sem poesia 
não se importa com essa lua, 
nem faz caso do luar! 

Enquanto a onça 
lá na verde capoeira 
leva uma hora inteira 
vendo a lua a meditar! 

(Refrão) 

Coisa mais bela 
neste mundo não existe, 
do que ouvir um galo triste 
no sertão, se faz luar! 

Parece até 
que a alma da lua é que descansa 
escondida na garganta 
desse galo a soluçar! 

(Refrão) 

Se Deus me ouvisse, 
com amor e caridade, 
me faria esta vontade, 
o ideal do coração! 

Era que a morte 
a descansar me surpreendesse 
e eu morresse numa noite 
de luar do meu sertão! 



Edgard Poças

Braguinha 90 anos 90

O roteiro do espetáculo, levado no SESC Pompeia por ocasião dos seus noventa anos, se perdeu, mas, se alguém quiser montar um novo aí estão algumas idéias. Clique para ampliar.

As músicas podem ser ouvidas no post Sol e Lua, Lua e Sol.

RASCUNHOS

DEPOIMENTOS:

Com Gilberto Gil
Com Aurora Miranda
Com Mário Lago
Com José Ramos Tinhorão
Com Max Nunes
Com Carlos Manga
Com Washington Olivetto

Com Johnny Alf
Com Noite Ilustrada
Com minha filha Céu, em sua estréia nos palcos. Ela cantou “Tem gato na Tuba”

Braguinha e um conhecido

Ah, se tu soubesses como eu sou tão carinhoso!…

Edgard Poças

ONDE ENCONTRAR

QUERENDO COMPRAR O CD, ENTRE NESTE ENDEREÇO:

https://www.popsdiscos.com.br/detalhe.asp?shw_ukey=47510

• Abaixo, a lista de endereços das plataformas de streaming, onde o CD CadaUmComSeuCadaUm está disponibilizado.


 SPOTIFY: http://open.spotify.com/album/3TXVHloluwPnCCPyTFu3jB


 ITUNEShttp://itunes.apple.com/us/album/id1481843244

DEEZERhttp://www.deezer.com/album/113127612


NAPSTERhttps://us.napster.com/artist/varios-artistas-2/album/cada-um-com-seu-cada-um


 TIDALhttps://listen.tidal.com/album/119279124


 [NYOUTUBEMUSIChttps://music.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_mWjznU0pH-GlFawrm8cLJHWPMZmopfNsA

Edgard Poças

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Edgard Poças

MINHA IRMÃ foi o grande amor da sua vida, MILTON.

Por Milton Nascimento
http://www.miltonnascimento.com.br/“


Minha relação de amizade com Elis foi uma das coisas mais fortes que já aconteceram na minha vida. E eu me lembro até hoje de cada detalhe e também de tudo que a gente viveu juntos. Tudo começou por volta de 1963, quando Wagner Tiso e eu estávamos no Rio de Janeiro para gravar um disco a convite do compositor Pacífico Mascarenhas.

Depois de uma viagem de carro que durou quase o dia inteiro entre Belo Horizonte e o Rio, fomos direto para o estúdio Musidisc. Quando a gente chegou lá, uma cantora chamada Luiza estava gravando a última faixa de seu primeiro disco. Naquele dia, o famoso maestro Moacir Santos estava fazendo os arranjos e precisava de um coro, então, o Pacífico colocou a gente para gravar ali mesmo, na hora.

Depois da gravação, teve uma festa na casa da Luiza. Eu conhecia Elis pelo nome, porque seus primeiros discos já eram conhecidos desde a época em que eu tinha um programa de rádio em Três Pontas (MG). E Elis também estava na casa da Luiza, onde havia vários músicos conhecidos da bossa nova. Então resolvi falar com ela, fiz uma brincadeira e cantei um rock que ela tinha gravado. Ela respondeu: – Cala a boca!

Esquece isso! – foi a primeira coisa que ela me disse na vida. Fiquei fascinado por ela.
E nós ficamos andando pelas ruas de Ipanema até de manhã.

 Em 1965, fui classificado com uma música de Baden Powell para o 2o Festival Nacional da Música Popular, e Elis estava escalada para fazer o show do último dia – pois havia levado o primeiro lugar na edição anterior com Arrastão. E, no fim de um ensaio, eu a encontrei num corredor quando ela estava chegando. Eu, muito tímido, abaixei a cabeça, porque para mim ela já era a rainha. Ela passou, bateu o tamanco no chão e disparou: – Escuta aqui! Mineiro não tem educação não? As pessoas educadas costumam cumprimentar as outras. Quando é de manhã, falam “bom dia”, quando é de tarde, falam “boa tarde”, quando é de noite, falam “boa noite”. Eu parei, pedi desculpas e disse que eu não queria incomodar, porque eu estava vendo o tanto de gente que queria falar com ela.
Conversamos mais um pouco e ela me convidou para ir à sua casa. – Eu quero que você toque aquela música que você cantou naquela festa na casa da Luiza – disse Elis, e começou a cantar a música, certinha. Naquela noite, na casa da Luiza, quando a gente se encontrou pela primeira vez, Wagner e eu tocamos uma música nossa: Aconteceu. Uma música que a gente havia feito ainda nos tempos de garoto, em Três Pontas. E, enquanto Elis cantava nossa música, eu olhava, pasmo. Como assim? Anos depois e ela ainda lembrava a letra e a melodia de uma música que tinha ouvido apenas uma vez! Ao observar minha cara de espanto, Elis soltou mais uma antes de sair: – Memória, meu caro! Memória…!
 Em 1966, Elis já era uma das artistas mais famosas do Brasil, tinha acabado de se mudar para um apartamento na Avenida Rio Branco, no centro de São Paulo. E, alguns dias depois de ter reencontrado Elis, fui até a casa dela para mostrar minhas músicas. Gilberto Gil, também começando, estava lá a ajudando a escolher repertório para o próximo disco. Toquei todas as minhas músicas, com os dois em silêncio. Até que ela me perguntou se não havia mais nenhuma. Por fim, meio desanimado, apresentei Canção do Sal e ela decidiu gravar.
Mais ou menos nessa época, eu ia praticamente a todas as gravações do programa O Fino da Bossa. Eu já tinha um amor dentro de mim por aquela baixinha. Até que, teve um dia, eu estava saindo da TV Record e a encontrei: – Onde vai passar o Natal? – perguntou ela. Quando eu disse que ia passar com minha família, em Três Pontas, ela retrucou: – De jeito nenhum! Você vai passar com a minha família no Rio. Fomos todos de avião, de São Paulo para o Rio. Na noite da ceia – onde conheci também o irmão dela, Rogério – eu estava sentado numa cadeira quando a Elis veio e sentou bem na minha frente. Isso foi logo após a entrega de presentes. Durante a conversa, ela chorou bastante, me contou várias coisas da vida. Foi então que percebi que ali estava nascendo uma grande e magnífica amizade.

Naquele tempo, a coisa estava muito difícil em São Paulo. Havia uma competição muito forte. A Elis Regina era uma das únicas pessoas que me davam atenção. E eu também não gostava de forçar a barra. Até que apareceu também o Agostinho dos Santos. Eu estava substituindo um músico num bar quando chegou uma pessoa e perguntou quem eu era. Era o Agostinho. Depois de me apresentar para várias pessoas, me levar a todos os lugares, ele contou sobre um festival que ia acontecer no Rio. Mas eu respondi:– Agostinho, de jeito nenhum! Disse a ele que eu não gostava daquele clima de competição em festivais, onde parecia que um queria matar o outro etc. Mas ele continuou insistindo por muito tempo, então parou. Ficou uns tempos sem aparecer e um dia, quando eu estava na pensão onde morava, ele me procurou: – Bicho, arrumei um produtor e vou gravar um disco! Preciso que você grave três músicas para ele escolher. Sem desconfiar de nada, fui à casa de um amigo dele e gravei três músicas: Maria Minha Fé, Travessia e Morro Velho. Entreguei a fita aoAgostinho e ele desapareceu novamente.
Passou mais um tempo e eu fui assistir ao programa da Elis, O Fino da Bossa. Gente que nunca tinha falado comigo começou a me abraçar e tal. De repente, saiu a Elis, que deu um pulo dizendo: – Eu sabia! Eu sabia! – Sabia o quê, Elis? –  eu perguntei. Daí ela falou:– Você classificou três músicas no Festival do Rio de Janeiro! Mas eu não tinha inscrito nenhuma música no festival, argumentei. Então, Elis respondeu: – Ah, então tem outro Milton Nascimento! Fiquei completamente desesperado com essa possibilidade. E, quando eu estava saindo do teatro, escutei a risada do Agostinho, daí entendi tudo. Ele tinha inscrito as músicas sem eu saber. – Agora não tem jeito! –  disse Agostinho, rindo. 
A partir desse festival, minha vida mudou completamente. Gravei meu primeiro disco no Brasil, e logo depois fui para os Estados Unidos gravar outro. Ao longo disso tudo, Elis e eu estávamos cada vez mais próximos. E, enquanto ela estava aqui com a gente, eu pude estar ao seu lado em praticamente todos os discos que gravou, assim como ela estava presente nos meus. Todas as músicas que fiz a partir do momento em que conheci Elis foram feitas para ela. Sempre que eu vou fazer alguma coisa, penso logo nela cantando, nunca foi diferente. 
Tem uma história que eu tenho contado bastante desde que gravei meu último disco,
E a Gente Sonhando. É sobre uma música que está neste disco, chamada Amor do Céu, Amor do Mar.
Como todas as músicas que eu faço, eu retrato minha vida, o que eu estou vivendo, o momento,as pessoas e tudo mais. E teve uma época em que eu estava com um problema de saúde e todas as noites sonhava com a Elis Regina. Ela vinha, e tinha sempre um jantar na casa dela, mas ela não cantava. Eu ficava pedindo para ela cantar e ela não cantava. Mais tarde, quando a gente estava fazendo os Tambores de Minas, uma criança falou que tinha visto dois anjos no palco comigo. E eu senti que nesses sonhos a Elis também estava com dois anjos. Foi uma história muito louca, porque alguém (que tem o dom de reconhecer as coisas) falou para mim que eu era muito forte porque tinha dois anjos da guarda. Eu não entendi por quê, pelo que eu saiba, cada um tem umanjo da guarda. Até que, um dia, minha sobrinha Dadaia chegou e me deu um cartão com meu anjo, o Jeliel, e, quando eu olhei, eram dois anjos. Então, Amor do Céu, Amor do Mar tem tudo isso, mas também tem outra coisa. Eu adoro água, mar, e essa coisa de mergulhar me ajudou muito na minha vontade de viver. Janaína é o amor do mar, assim como Elis Regina é amor do céu.
A amizade entre a gente era tão grande que, em todos os shows da Elis que fui assistir depois que o João e o Pedro nasceram, era eu quem ficava com eles enquanto ela cantava. Teve um show da turnê Transversal do Tempo, em que eu estava com o João sentado à minha direita, e o Pedro à esquerda. E tinha uma música em que a Elis subia o tom a cada frase. E, assim que ela começava a  subir, o Pedro também ia subindo junto. Quanto mais ela subia, mais ele subia também. E o Pedro seguia acompanhando a mãe até a última nota. Elis e eu vivemos muitas coisas juntos, um sempre cuidava do outro. Eu nunca fui somente um compositor, um colega de trabalho. Para ela, eu fui muito mais que isso. Nossa relação é uma coisa que me arrebata até hoje. E eu nunca me esqueço de uma coisa que o Rogério, irmão da Elis, me falou depois de um show em Paris:  – Minha irmã foi o grande amor da sua vida, Milton.”

Você olhou sorrindo pra mim , me acenou um beijo de paz , virou minha cabeça 

Edgard Poças

A ALMA DO SAMBA. Entrevista de Noël Rosa

A alma do samba

    
“Ninguém sabe como o samba nasceu. Ele foi um dia descoberto na rua
e aperfeiçoado. Hoje tem escola. Criadores de estilo. J.B. Silva, o célebre Sinhô, foi um deles. Sinhô foi ao morro, captou vários estribilhos de samba e os estilizou com grande sucesso. Jura por exemplo, e também, Gosto que me Enrosco. A princípio, o samba foi combatido. Era considerado distração de vagabundo. Mas o samba estava bem fadado. Desceu do morro, de tamancos, lenço no pescoço, vagou pelas ruas com um toco de cigarro apagado no canto da boca e as mãos enfiadas nas algibeiras vazias e, de repente, ei-lo de fraque e luva branca nos salões de Copacabana. Mas o companheiro do samba, sempre será o violão, que já obteve também sua vitória definitiva. O samba é a voz do povo. Sem gramática, sem artifício, sem preconceito, sem mentira. É malicioso e ingênuo. O povo carioca sente a alma do samba, mas o morro do Castelo foi abaixo e a policia “espantou os malandros inveterados e escrachou as cabrochas. Mas o malandro não desapareceu. Transformou-se, simplesmente, com a sua cabrocha, pra tapear a polícia. Ele já está de gravata e chapéu de palha e ela usa meias de seda. Quando se fala em ser doutor em samba não se diz uma frase vã. Não faltam médicos e advogados para elevar o samba. Aí estão os doutores, Joubert de Carvalho, Ary Barroso, Olegário Mariano e muitos outros. Futuramente, teremos coisa mais solida, mais estilizada. Por enquanto, o samba está  evoluindo e o faz rapidamente. O fox-trot e o tango já se transformaram e hoje representam duas raças distintas. Tem orquestras típicas. O samba ainda não a possui. Quando houver aqui uma orquestra típica de samba, o brasileiro poderá dizer que o seu país tem a sua música original. – Mas, Noel, já existem alguns instrumentos próprios para o samba, não? – Alguns, mas não todos. E apareceram agora, não se achando ainda popularizados. A cuíca que ronca. O tamborim repicando em torno do centro que faz a barrica. O Omelê que floreia dentro de mil variedades de ritmo. O afochê. São todos os instrumentos destinados a embelezar o ritmo. Não há samba sem ritmo (uns dizem cadência, outros batida). O certo, porém, é que o samba foi inspirado no pisar da morena carioca. “

(Entrevista a O Debate, Belo Horizonte, 9 de marco de 1935.)