A ALMA DO SAMBA. Entrevista de Noël Rosa

A alma do samba

    
“Ninguém sabe como o samba nasceu. Ele foi um dia descoberto na rua
e aperfeiçoado. Hoje tem escola. Criadores de estilo. J.B. Silva, o célebre Sinhô, foi um deles. Sinhô foi ao morro, captou vários estribilhos de samba e os estilizou com grande sucesso. Jura por exemplo, e também, Gosto que me Enrosco. A princípio, o samba foi combatido. Era considerado distração de vagabundo. Mas o samba estava bem fadado. Desceu do morro, de tamancos, lenço no pescoço, vagou pelas ruas com um toco de cigarro apagado no canto da boca e as mãos enfiadas nas algibeiras vazias e, de repente, ei-lo de fraque e luva branca nos salões de Copacabana. Mas o companheiro do samba, sempre será o violão, que já obteve também sua vitória definitiva. O samba é a voz do povo. Sem gramática, sem artifício, sem preconceito, sem mentira. É malicioso e ingênuo. O povo carioca sente a alma do samba, mas o morro do Castelo foi abaixo e a policia “espantou os malandros inveterados e escrachou as cabrochas. Mas o malandro não desapareceu. Transformou-se, simplesmente, com a sua cabrocha, pra tapear a polícia. Ele já está de gravata e chapéu de palha e ela usa meias de seda. Quando se fala em ser doutor em samba não se diz uma frase vã. Não faltam médicos e advogados para elevar o samba. Aí estão os doutores, Joubert de Carvalho, Ary Barroso, Olegário Mariano e muitos outros. Futuramente, teremos coisa mais solida, mais estilizada. Por enquanto, o samba está  evoluindo e o faz rapidamente. O fox-trot e o tango já se transformaram e hoje representam duas raças distintas. Tem orquestras típicas. O samba ainda não a possui. Quando houver aqui uma orquestra típica de samba, o brasileiro poderá dizer que o seu país tem a sua música original. – Mas, Noel, já existem alguns instrumentos próprios para o samba, não? – Alguns, mas não todos. E apareceram agora, não se achando ainda popularizados. A cuíca que ronca. O tamborim repicando em torno do centro que faz a barrica. O Omelê que floreia dentro de mil variedades de ritmo. O afochê. São todos os instrumentos destinados a embelezar o ritmo. Não há samba sem ritmo (uns dizem cadência, outros batida). O certo, porém, é que o samba foi inspirado no pisar da morena carioca. “

(Entrevista a O Debate, Belo Horizonte, 9 de marco de 1935.)

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