VINICIUS: MEU CAYMMI. Por Vinicius de Moraes em O PASQUIM, Nº 64 – Setembro de 1970

Um amigo meu disse que em samba, canta-se melhor flor e mulher…

Conheço Dorival Caymmi desde o início da década de quarenta, quando cheguei da Inglaterra, onde estudava, fugindo à segunda Grande Guerra. Encontrava o baiano ali pelo Leblon, que nessa época esta a começando apenas a dar um ar de sua graça. Minha casa ficava na Rua General San Martin, e entre uma sortida e outra à praia, nossa patota, (naquele tempo se dizia turma) descansava o espírito num bar-mercearia que havia na esquina da Ataulfo de Paiva com a Carlos Góis:  – éramos eu, Rubem Braga, Moacir Werneck de Castro, Jimmy Abercrombie, Carlos Leão, Juca Chaves, o engenheiro e o dono do famoso Juca’s Bar, de saudosa memória) e outros aderentes eventuais, alguns dos quais já se mandaram a muito. Caymmi mora a numa casa, de aparência estranha, no fim da Ataulfo de Paiva, que, se não me engana, ainda existe. Nada prenuncia ainda que o Leblon se fosse tornar um bairro tão em vago. O baiano gostava de tomar um conhaquinho, devagar e sempre. Nós éramos do chope e da cerveja. O verão carioca eliminava tudo na transpiração.

Desde então ficamos amigos. Nossas vidas eram diferentes. Caymmi era mais da patota de Jorge Amado. Eu tinha tido um período de compositor, aí pelos 16 anos com os irmãos Tapajós, dupla vocal famosa na época, mas depois deixei. Só o viria retornar 27 anos mais tarde, quando Antônio Maria entrou de sola em nossas vidas. Já o forte de Caymmi era a composição. Alguns de seus mais belos samba canções. 

Quando, em 1950, regressei do meu posto de vice-cônsul em Los Angeles, depois de cinco anos de ausência. Caymmi e Antônio Maria começaram a frequentar assiduamente minha casa. As facilidades diplomáticas então existentes induziram-me a trazer 30 caixas de uísque que tiveram o poder de aguçar extraordinariamente o faro de meus amigos. A casa viva cheia, dia e noite. Lembro que uma tarde estava com Paulo Mendes Campos, no Juca’s Bar, na cidade, quando ouvi um cara desconhecido na mesa ao lado, convidar um outro para ir a minha casa, onde – assegurava ele – o uísque corria. Só sei dizer que 360 garrafas do mais puro escocês foram absorvidas em menos de 2 meses, o que representa uma média de 6 unidades por dia. E a moçada já era sadia.

Entre 50 a 53, ano em que parti em posto para Paris. Caymmi e eu nos vimos com bastante frequência, em companhia de Antônio Maria, Aracy de Almeida, Paulinho Soledade, Fernando Lobo e outros encaixotadores de sereno.  

Encontrávamo-nos a noite, no finado Vogue. Depois íamos para o “Sacha’s”, depois para o Clube da Chave, onde conheci, pouco antes de partir, meu parceiro Antônio Carlos Jobim. A conversa era fácil e maledicente. Caymmi seguia compondo. Quando posteriormente começou a trabalhar no “36” da Rua Rodolfo Dantas, nós não saíamos de lá. Era uma época boa e descompromissada com a voz de Aracy, Elisete, Nora Ney, Dóris Monteiro, Ângela Maria, e depois Maysa enlanguescendo as madrugadas…

Saudade, torrente de paixão, emoção diferente, que aniquila a vida da gente, uma dor que eu não sei de onde vem…

Eu fizera sozinho meus primeiros sambas. Amávamos a noite como se ela fosse uma mulher. Nosso último reduto, era o Pescadores, na Francisco Otaviano, onde se comia os melhores ovos com presunto da madrugada e, eventualmente, saía cada pau de meter medo, por isso “que a turma já vinha de muitas horas de voo.

Em 57, estando eu em Paris, soube que Caymmi ia chegar. Sem poder ir ao aeroporto, pedi a relações públicas da velha Panair que o localizasse para mim em Orly, e falamos ao telefone. Fiz questão de assinar o ponto da amizade e muito bem obrei, pois os baianos residentes, a frente dos quais se colocou Odorico Tavares que viajara com ele, o sequestraram de tal modo, que só o pude ver uma noite no “Calavadões”, onde ele tocou violão e cantou para o trio local “ Los Latinos” nome a que nós, os frequentadores de sempre, acrescentávamos a letra R.

Mas foi somente em fins de 64 que nossa amizade se solidificou para valer, graças a um convite de Aloisio Oliveira e Paulinho Soledade, proprietário do” Zum Zum”, para que fizéssemos um show juntos, escorados pelo Quarteto em Cy, e o conjunto de Oscar Castro Neves. O show constituiu um grande sucesso, e nele lançou Caymmi sua bela valsa, … das Tosas, cuja criação me anunciava 7 anos antes, numa tarde na casa de Jorge Amado. Isso para dar uma pala de como o baiano curte o que compõe. 

Nós todos o acompanhávamos na belíssima História de Pescadores. Eu dizia sempre O Dia da Criação, com a boate no mais absoluto silêncio, e isso para mim foi muito bom, esse contato poético com o público, que me certificou de que a poesia ainda não havia morrido. Nosso bate-papo entre os números, na base do improviso, ficou muito popular na noite carioca, e Aloisio pensou em dele tirar um LP, que afinal não foi avante. Mas as fitas existem por aí, para documentar sua espontaneidade, e as maravilhosas e sábias tiradas de Caymmi, que faziam o público morrer de rir. 

De pouquíssimos seres humanos eu gosto tanto. Não há amigo mais perfeito, se não se exigir mais do que ele, em sua baianidade, pode e sabe dar: e não é por acaso este o segredo da amizade, a gente não forçar a barra do amigo, deixa-lo ser ele mesmo usufruir do seu convívio,  no que ele tem de mais saboroso e autêntico?

“Acontece que sou baiano”, disse ele, num de seus melhores sambas. E é realmente difícil encontrar alguém mais baianamente dengoso que Caymmi, apesar de sua grande quilometragem carioca. Sua barriga redonda e cheia de ritmo, que parece dançar por conta própria quando ele canta – à barriga que viveu e amou a vida – é o retrato de sua  Bahia. Como de resto, sua cor, a malemolência brejeira de seus olhos, quando interpreta, e o balanço gordo e descansado do seu samba: samba que parece ter o visgo gostoso de ar da Bahia, feito de calor e brisa; o quebranto de suas cadeiras, por onde os baianos descem desmanchando as ancas, a untuosidade pungente de suas comidas e seus pirões afrodisíacos, onde o dendê, o amendoim, o gengibre e a pimenta- de cheiro são condimentos obrigatórios, a patina de seu casario, como no Pelourinho, e a misteriosa claridade de seu lar, que o fez dizer, num verso da mais alta síntese poética, em sua canção sobre a Lagoa do Abaeté.

A noite tá que é um dia…

Caymmi constitui, a meu ver, como Pixinguinha, Noel Rosa, Antônio Carlos Jobim e agora despontando no amanhecer Chico Buarque de Holanda, um dos cinco solitários da música popular brasileira. Canções como O Mar, Dora, João Valentão, É Doce Morrer no Mar, Lenda do Abaeté, Saudade de Itapoã, Rosa Morena são obras-primas sem jaça das maiores de todos os tempos no populário nacional ou estrangeiro. E assim, é meu Caymmi, grande sábio, vasto, intenso: um excelso mandarim baiano, que ainda representa melhor que ninguém esse maravilhoso berço mestiço da nacionalidade que é sua Bahia nativa – a terra onde os preconceitos não tem cor e a falta de bossa não tem vez.

eu que tenho rosas como tema, canto no compasso que quiser.

Edgard Poças

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