LUIZ GONZAGA, por GILBERTO GIL

Prefácio

Por Gilberto Gil

O caminho que a música popular percorre do campo para a cidade, correspondendo ao êxodo das populações rurais para os centros urbanos maiores, vem sendo aberto e pavimentado ao longo do século numa série de ciclos dos quais os mais intensos e significativos numa escala verdadeiramente nacional se deram, essencialmente nas décadas de quarenta e cinquenta. Os vários modelos folclóricos que os povos do interior foram criando e acumulando durante o longo período de colonização, começam a escoar mais intensamente nas cidades na primeira metade deste século. Item indispensável na bagagem do êxodo rural, conseguem se estabelecer definitivamente, senão como base formadora, pelo menos como ingrediente importante na constituição dos novos gêneros urbanos que vieram a plasmar a nossa música popular, a partir dos anos trinta. Dentro aqueles gêneros diretamente criados a partir da matriz folclórica, está o Baião e toda a sua família. E da família do baião Luiz Gonzaga foi o pai.

Seu nome se inscreve na galeria dos grandes inventores da música popular brasileira, como aquele que, graças a uma imaginativa e inteligente utilização de células rítmicas extraídas do pipocar dos fogos, de moléculas melódicas tiradas da cantoria lúdica ou religiosa do povo caatingueiro, de corpos narrativos, vislumbrados na paisagem natural, biológica e psicológica do seu meio, e sobretudo, da alquímica associação com o talento poético e musical de alguns nativos nordestinos emigrantes como ele, veio a inventar um gênero musical, o baião. O baião que, à frente de toda uma família de derivados, não só do Nordeste, como de outras regiões do país, passa a se constituir no principal gênero da nossa música popular, depois do samba.

Este livro escrito por Dominique Dreyfus, uma jornalista francesa, com profunda vivência das coisas do Brasil e da cultura nordestina, vem fazer justiça a vastidão e riqueza da paisagem humana gonzagueana, finalmente retratada na sua variedade de tonalidades existenciais, topografias morais, microclimas afetivos – com suas serras amenas e seus rasos de cáctus e cipoais ameaçadores. Paisagem ora representada por uma estrada na campina aberta do amor incondicional ao povo, ora por uma gruta insondável e misteriosa no interior de um lajedo da alma. Paisagem, enfim, iluminada, aqui, com luz ofuscante e inebriante do canto de peito aberto, ou obscurecida, ali, pela fumaça sufocante da fogueira das vaidades e ambições.

Eu como discípulo e devoto apaixonado do grande mestre do Araripe, associo-me às eternas homenagens que a História continuamente prestará ao nosso Rei do Baião, abrindo ao leitor, com palavras de louvação e gratidão, as páginas deste livro.

Este livro, eu sei, é fruto do imenso amor e admiração de tantos que tiveram o privilégio do convívio com o belo e encantador mulato da caatinga. Tantos entre os quais a autora, estou seguro, tem grande orgulho de estar incluída.

                                                                                                          Gilberto Gil

Publicado em Vida de Viajante: A Saga de LUIZ GONZAGA – Dominique Dreyfus. Editora 34. 1996. Prefácio de Gilberto Gil.

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