RANCHO FUNDO

Ary Barroso – Lamartine Babo

“O ente que olhar, daqui a 100 anos, as obras-primas de J. Carlos, poderá viver a vida que estamos vivendo”. Assim, o poeta, cronista e jornalista brasileiro, Álvaro Moreira a um dos maiores desenhistas da história da imprensa brasileira.

José Carlos de Brito e Cunha (1884-1950), o J. Carlos é autor de uma das mais poderosas crônicas visuais do Brasil na primeira metade do século XX. Sua vasta produção, que se acredita ter passado de 50 mil desenhos, inclui caricaturas, charges, cartuns, alfabetos tipográficos, vinhetas, publicidade, enfim, todo o universo gráfico das primeiras revistas ilustradas do Brasil. – do site do Instituto Moreira Salles.

Álvaro Moreira tinha razão. Em 3 /10/2019, dia em que escrevo este post, o Instituto Moreira Salles está apresentando a exposição  J. Carlos: originais, a longa e variada produção em cerca de 300 desenhos desse artista genial. Assista a apresentação, por Cássio Loredano: https://ims.com.br/exposicao/j-carlos-originais-ims-paulista/

J. Carlos por Mendez
Ary Barroso por William

Porém, como autor teatral o grande desenhista não se saiu bem com o espetáculo É de outro mundo, que, após 16 dias depois da estreia, saiu de cartaz. De especial, nessa peça, havia o samba-canção Na grota funda – com o subtítulo de Esse mulato vai sê meu, com letra sua e música de Ari Barroso, apresentado por Araci Cortes. Segue a letra:

Na grota funda/ Na virada da montanha/ Só se conta uma façanha/ Do mulato da Raimunda/

Matou a nega/ Cum pedaço de canela/ E depois, sem mais aquela/ Foi juntá com uma galega

Ela morreu/ Na virada da montanha/ Vai havê outra façanha/ Esse mulato vai sê meu

Esse mulato/ Vai fazendo o que ele qué/ Já matou duas mulhé/ Porque bamba ele é de fato

Se não morreu/ Vai mangá esse cachorro/ Na virada ali do morro/ Esse mulato vai sê meu

Lamartine Babo assistiu a peça, adorou a melodia de Ari Barroso, mas não gostou nada dos versos de J. Carlos. E, sem consultar os autores, escreveu outra letra, mudando o nome da música para: No rancho fundo e apresentou a nova obra num programa de rádio. Assim, nasceu uma obras prima da música popular brasileira e uma inimizade entre J. Carlos e Ari Barroso que durou até a morte do desenhista.

Ari Barroso tentou explicar ao antigo parceiro, que não tinha nada a ver com isso, e jurou que a iniciativa foi de Lamartine Babo. Mas, foi em vão, porque J. Carlos nunca mais quis saber de conversa. Claro que Ari gostou da mudança da letra, até porque, nenhum compositor é obrigado a aceitar um parceiro, nem quem pretenda substitui-lo . Se ele estivesse interessado em manter a parceria com J. Carlos não autorizaria que, um ano depois, a cantora Elisa Coelho gravasse a música, com a letra do Lalá.

Ouça a gravação original e tente identificar o pianista inzoneiro que acompanha a cantora : https://www.youtube.com/watch?v=HGD1rNkSnLo

Enviem suas respostas para cadaumcomsualetra.com.br, e aqueles que acertarem receberão, de presente, uma aquarela virtual.

Será que vai dar confusão?

Uma ocasião, Dona Darci Vargas, esposa de Getúlio, nossa primeira dama, contando com amplo apoio da imprensa, promoveu um espetáculo com nossos maiores artistas, para angariar fundos para suas obras de assistência social, e foi um sucesso de público. Ao final da temporada, dona Darci, distribuiu alguns brindes entre os artistas em sinal de agradecimento. Lamartine recebeu o de Ary Barroso, que não pode comparecer ao espetáculo de despedida, e, dias depois, Lalá entrega-lhe uma caneta.

– Ué, não era um relógio? –  estranhou Ari.

– Não. É uma caneta mesmo – respondeu Lamartine.

– Disseram que ela me presenteou com um relógio.

– Que relógio, Ari, foi essa caneta mesmo, palavra!

– Estranho…, a informação que me deram é que era um relógio.

Ari não acreditou na história, convencido de que dona Darci lhe deu um relógio que virou caneta.

Muito tempo depois, o locutor Osvaldo Sargentelli, sobrinho de Lamartine, estava no restaurante Fiorentina, no Leme, Rio de Janeiro, ao lado de Ari Barroso, quando Lamartine entrou e foi até a mesa onde os dois estavam.

Ari enfiando a mão no bolso de dentro do paletó, falou bem alto, para Lalá ouvir:

– Vou ver que horas são.

E tira uma caneta do bolso.

Me disseram que era uma caneta!

Rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine Babo) com Elisete Cardoso: https://www.youtube.com/watch?v=i_bqt2PLNa4

Rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine Babo) com Chitãozinho e Xororó: https://www.youtube.com/watch?v=5-Rk9lTAHI8

Rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine Babo) com António Zambujo e Miguel Araújo – no Coliseu do Porto, Portugal: https://www.youtube.com/watch?v=5ZZoqjMma1w

Rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine Babo) com Fábio Junior: https://www.youtube.com/watch?v=mwTjO2JaKGk

Rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine) com Sylvio Caldas: https://www.youtube.com/watch?v=s56wpjOBFR4

Rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine) com Isaura Garcia: https://www.youtube.com/watch?v=wiGH4sFuJM8

Rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine Babo) com Ana Clara e Gustavo Lima: https://www.youtube.com/watch?v=NUN_ZcSZ42I

Rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine) com Yamandú Costa: https://www.youtube.com/watch?v=6WLBxdnsndA

Rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine) com Francisco Petrônio e Dilermando Reis: https://www.youtube.com/watch?v=u1MHVDJv_EY

Rancho fundo (Ary Barroso e Lamartine) com: AnaVitória e Chitãozinho e Xororó: https://www.youtube.com/watch?v=EEp8JyE5DMo

Edgard Poças

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